O escravo José

O post dessa semana é uma homenagem a todos os homens e mulheres que foram (e são) vítimas de racismo. Nosso desejo sincero é que chegue logo o momento em que todos os seres humanos sejam tratados igualmente e que sofrimentos como os de José façam parte apenas dos livros de história.


O texto abaixo foi retirado do livro Sertões dos Puris, de autoria de Heitor Bustamante. O livro foi escrito em 1971 e os trechos abaixo encontram-se adaptados e transcritos de acordo com as regras de português vigentes na época.


"O escravo José, crioulo ainda môço, de menos de 30 anos, era fujão; depois de uns meses de ausência foi capturado em Pirapetinga e conduzido à presença do "senhor", morador no local e que, no dizer de alguns, era de maus bofes, tanto que, no mesmo dia, mandou por outro, castigá-lo com uma boa surra de palmatória, pelo espaço de uns 15 a 20 minutos, além de outra menor em seguida.


Morrendo o crioulo às dez horas da manhã, os peritos do corpo de delito declararam ter encontrado o cadáver no chão de uma sala, sôbre uma esteira, com a cabeça e barba raspadas à navalha, tendo as mãos e os punhos muito inchados, e na palma da mão esquerda uma bôlha de sangue pisado, no lábio superior um ferimento; um outro no lábio inferior, e nas costas abaixo da espádua.


No interrogatório o acusado declarou que era portuguêz, de 42 anos de idade, casado, e que residia na freguesia de Pádua desde 1850, onde era negociante e proprietário. Na sua defesa que foi completa em provas de boa conduta, juntou um valioso documento, altamente abonador, onde estão assinadas as melhores e mais distintas figuras de homens de todos os recantos da freguezia, notadamente de Santo Antônio dos Brotos (Miracema).


E assim terminou êsse ruidoso processo.


O prêto José morreu, era de condição infeliz, além de tudo escravo.


O seu indigitado matador venceu, tinha poder, depois cresceu ainda mais, ficou importante, projetou-se na política e teve postos de comando. Vitorioso no processo crime, mandou que dêle se fizesse um opúsculo e, na ocasião (1865) o distribuiu com os amigos, sendo que um dêstescêrca de 65 anos, por azar, caiu nas mãos do contador desta história".

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